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Jornalismo opinativo é considerado mesmo jornalismo?

Jornalismo opinativo é considerado mesmo jornalismo?

Por que o jornalismo opinativo está tão disseminado nos órgãos de comunicação que sempre defenderam a ética da informação sem a aplicação de adjetivos? Será que realmente temos um jornalismo capaz de transmitir informações para que o cidadão possa formar seu ponto de vista sem interferências diretas de persuasão? Hoje em dia, os discursos jornalísticos estão impregnados de coerção.

Independente da linha ideológica defendida, muitas empresas de comunicação estão usando a bandeira do jornalismo para difundir seus valores ideológicos travestidos de jornalismo. O emprego da palavra fere o estado de direito, pois usa a pecha da credibilidade sobre a transferência ou transmissão da notícia vinculada ao fato como verdade. Quando se usa o jornalismo para defender uma notícia transmitida, o leitor, espectador ou internauta que dá audiência para a empresa de comunicação, automaticamente, vincula aquilo como verdade e não como opinião.

O que se deve entender é que as empresas que montam suas linhas editoriais usando o conceito de jornalismo opinativo enquanto está transmitindo a notícia, fere a liberdade a própria escolha ideológica que o cidadão poderia fazer se estivesse diante de uma notícia sem o foco opinativo.

Este movimento opinativo começou faz anos dentro dos jornais. No entanto, aquilo que era instituído como opinião explícita era chamado de crônica. Para além da crônica, ainda havia o editorial do órgão jornalístico que também demonstrava opinião explícita sobre fatos e notícias, obviamente, alinhando a linha editorial como critério impossível de se dissociar da interferência humana, pois as notícias são redigidas por pessoas.

Este entendimento é bastante claro porque vem de um fundamento honesto sobre a criação do discurso escrito ou falado. Faz parte do princípio do discurso compreender que não há texto sem vínculo ideológico. No entanto, esta interferência do pensamento livre dentro da criação textual deveria ser sempre um evento monitorado pelo próprio jornalista.

Trocando em miúdos, esse questionamento significa que se deve entender que mesmo sendo imparcial, o texto jornalístico que obedece os princípios fundamentais de seu conceito sempre será tendencioso para algum espectro ideológico. E este espectro ideológico, livre de valores morais propositivos, deveria ser alinhado com a linha editorial do órgão de comunicação jornalístico.

O jornalismo opinativo, atualmente, tomou conta das pautas de jornais, revistas e outros meios de comunicação informativa, tal como sites, blogs, colunas virtuais, entre outros tipos de comunicação propositivos ao meio jornalístico. No entanto, há hoje em dia também a preocupação com a fake news, veiculada em diferentes áreas e plataformas.

O que é preciso entender no contexto brasileiro, que cerca a política e os meios de comunicação, é a definição da palavra jornalismo e a aplicação dela pelas empresas que fundamentam, produzem e veiculam notícias com opinião explícita ou velada. É justo entender que o jornalismo pode incorporar o processo opinativo em seu conceito?


Infográfico 1 - o emprego do jornalismo como  fundamento de comunicação


Neste infográfico, percebe-se que a linha temporal entre o início da transmissão da informação, alcunhada de notícia, é separada de forma clara da análise desta notícia com opinião. Essa análise da notícia com opinião é a crônica, ou seja, o momento para a análise explicitamente valorando o fato sobre um ponto de vista. Esta relação cartesiana demonstra que o cidadão pode compreender as separações do discurso criado e consegue refletir a partir da notícia sem interferências claras e das interferências com opinião.

No entanto, aquilo que se vê como padrão dentro dos principais meios de comunicação no Brasil sofre uma distorção sobre estes princípios.


Infográfico 2 - o emprego do jornalismo opinativo


Neste infográfico, vê-se que a transmissão da notícia está alinhada, diretamente, sobre o extrato opinativo. É lógico que neste processo de comunicação, o cidadão que dá audiência a esta "linha jornalística" não compreende, claramente, a diferença do que é fato e o que é ponto de vista.

Qual é a diferença entre a opinião velada e a opinião explícita, usando como referência o infográfico 2? A relação está no conceito de verdade que a notícia transmite para o cidadão.

Há grande diferença entre o discurso jornalístico e o discurso ideológico. Quando Olavo de Carvalho escreve seus pensamentos nos livros publicados, não há desonestidade intelectual sobre o princípio do conceito jornalístico. Obviamente, porque se trata de um livro, ou seja, um texto programático para a defesa de uma linha ideológica.

No entanto, este princípio de comunicação, dentro das empresas com proposição jornalística, não pode ser aplicado porque o propósito jornalístico está na transmissão da notícia para o objetivo da informação. 

Para haver solução sobre esta distorção, os meios de comunicação que tem o propósito jornalístico, deve-se entender que a clareza sobre estes momentos de comunicação precisam estar claros e separados. Não há como criar jornalismo aplicando opinião.


No artigo intitulado Orgulho e preconceito: a "objetividade" como mediadora entre o jornalismo e seu público, publicado em 2012 na SCIELO - Scientific Electronic Library Online, de autoria de Flávia Biroli e Luiz Felipe Miguel, cita-se o seguinte período que faz parte da conclusão do texto:

No jornalismo, a neutralidade corresponde à validação de discursos hegemônicos. O entendimento de que veículos e jornalistas mantêm posição de exterioridade em relação aos conflitos políticos e sociais lhes confere a possibilidade de colocar em circulação julgamentos, sem a pecha de agir em nome de interesses específicos. Quando a neutralidade é considerada um ideal que não se efetiva, mas que permite distinguir entre o bom jornalismo e o ruim, a oposição entre fatos e julgamentos permanece ainda como uma referência para jornalistas, público e analistas.


Como se percebe, inclusive publicado o artigo antes do movimento de polarização política iniciada em 2013 no Brasil, é que o jornalismo não aceita em seu princípio fundamental o vínculo explícito de opinião.

O que o Estado Cidadão difere das empresas de comunicação que disseminam o jornalismo opinativo?

Esta comunidade não é uma fonte de informação jornalística. Isso é claro quando se criou o propósito aqui exercitado. Aqui é o espaço que se abre para a reflexão com opinião sobre tudo que é notícia. Independente do discurso ideológico, o que se prega aqui é o respeito sobre a divergência, muito mais importante em tempos de polarização.

O Estado Cidadão não tem a pretensão de ser um órgão vinculado ao jornalismo, mas sim uma mesa de debate, um ambiente que privilegia o debate respeitando as divergências.

Entender que o debate evolui a reflexão sobre uma formação de opinião é prioridade. Por isso, comente aqui o que você entende ser relevante para a construção deste ambiente. Suas interferências são relevantes para o cidadão que se encontra em constante amadurecimento sociopolítico. E assim conseguimos melhorar aquilo que é a realização ativa de um pensamento abstrato, ou seja, ação. Se você entende que hoje temos políticos nocivos ao estado de direito do cidadão, somente pelo amadurecimento da visão política será o caminho. E o voto, como sempre foi no estado democrático de direito, será a solução para um Brasil mais justo.

 

Estado Cidadão
Rafael Cardoso
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Um cidadão que deixou de ser passivo para trazer luz e ambiente à discussão social e político.

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